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À procura da sobrevivência

"Clique" fez a porta sendo trancada pelo lado de dentro. O garoto mais uma vez jogou as chaves em cima do pequeno móvel ao lado da porta e levou as bolsas que trazia até a cozinha, deixou-as ali mesmo e se jogou mais uma vez no sofá, enquanto pegava o celular para conferir as horas. Era de manhã, pouco antes das oito. Ele respirou fundo e se levantou novamente, subiu as escadas, tomou banho, colocou uma camisa quadriculada, tênis um pouco mais formais, rearrumou a mochila, pegou a bicicleta e saiu. Passou em vários locais até que, já por volta das duas e meia da tarde, parou em uma lanchonete e pediu algo pra comer. 

Um senhor sentado em um dos cantos do pequeno estabelecimento parou pra prestar atenção nele, que carregava um semblante caído no olhar e por todo o rosto. O senhor era negro e usava uma boina, seu olhar era perspicaz e ao mesmo tempo generoso.

"Tudo bem com você, rapaz? Você não parece muito feliz..."

O garoto, que estava sentado em frente ao balcão olhou pra traz em direção à voz, e, ao perceber que era com ele que o senhor falava, respondeu.

"Pois é, passei uma boa parte da manhã procurando um emprego, mas a situação não anda fácil, e, de qualquer modo essas coisas costumam demorar..."

"Entendo..." O senhor sorriu de um modo compassivo, enquanto o observava atentamente "E o que você gosta de fazer?"

"Bem, eu não estou à procura da felicidade... Eu só preciso de um emprego... Então... Acho que não precisa ser algo de que eu goste necessariamente, sendo um emprego justo e que eu seja capaz de fazer... Acho que está ótimo..."

O senhor deu uma pequena risada com a resposta, que não era nem polida nem rude, apenas carregada de uma sinceridade lancinante. 

"Eu não sei porque, filho... Mas eu acho que posso dizer que você vai conseguir, sim?"

O senhor se pôs de pé, deu um tapinha nas costas do rapaz e disse: "Enquanto isso..." e se virou para o outro rapaz, que tomava conta da lanchonete "Pague o meu e o do nosso amigo aqui, por favor, e pode ficar com o troco, Jonas."

"Não, não precisa, obrigado, senhor..." o jovem que estava sentado se sobressaltou um pouco, com o olhar meio preocupado "Eu ainda tenho dinheiro, posso pagar, agradeço, mas..."

"Sim, sim, eu sei que tem, é apenas um gesto... Não perca a fé, garoto."

"Bem, sendo assim..." ele ficou olhando de um para o outro, ainda um pouco desconcertado e então concluiu "Obrigado."

O senhor fez um gesto displicente, como quem diz "Não há de quê" depois acenou para Jonas e deixou o pequeno estabelecimento.

"Ele é legal, o senhor João... Esse é o nome dele." Jonas finalmente havia dito algo.


"Sim, ele parece ser." o garoto deu um sorriso meio sem graça, terminou o seu lanche, agradeceu pelo atendimento e saiu.

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