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Amélia

Era noite. Umas poucas estrelas pontilhavam o céu escuro, enquanto a cidade permanecia se movendo normalmente, carros e ônibus corriam pelas suas rodovias, pessoas andavam pelas ruas, e, dentro de um desses ônibus, uma garota se encontrava sentada, próxima à janela, olhando através, admirando os carros e os postes que passavam, as construções e o céu azul escuro, quase negro, da noite. A luz branca que iluminava o interior do ônibus contrastava um pouco com o exterior mal iluminado daquela via que desembocaria em breve no centro da cidade. A garota em questão possuía cabelos longos e negros como a noite, trajava uma camisa de mangas longas e calça jeans, ambas também pretas, e tênis brancos, já um pouco gastos e surrados, mas daquele tipo de tênis que fica mais legal quanto mais gasto e surrado ele é. Vestia também um par de luvas com os dedos cortados que terminavam de montar o visual arrojado que talvez definisse tão bem a sua personalidade. As pessoas do ônibus por vezes olhavam torto pra ela, um par de garotas cochicharam quando ela entrou e deram risadinhas abafadas, ela apenas fechou o rosto e andou decidida com passos firmes até o lugar que havia escolhido. Sentada ali naquele ônibus ela apenas colocou os seus fones de ouvido e ficou observando a paisagem passar sob o céu escuro da noite. O ônibus parou enfim e ela desceu, as ruas do centro da cidade estavam movimentadas ao final de uma sexta-feira como todas as outras, pessoas passavam de um lado pro outro enquanto ela caminhava com a expressão fechada e decidida de quem não dá a mínima pros olhares de estranheza. Um trio de rapazes estava encostado em uma das paredes de um prédio qualquer, conversando animados e soltando risadas, quando um deles resolveu soltar palavras "elogiosas" e outras nem tanto assim, que nem me dignarei a transcrever aqui, para a garota da qual falamos, enquanto ela passava por eles. Ela retrocedeu um passo, virou para eles, punhos cerrados e gritou: "Sim, linda como a senhora sua mãe!" e girou novamente nos calcanhares, voltando a andar pisando firme no chão, sem se voltar nem por um segundo para ver os outros dois debocharem entusiasmadamente do seu colega que havia acabado de receber a resposta "malcriada" em questão. Ela chegou então ao seu destino: um pequeno shopping à beira de uma grande lagoa. Ela entrou e subiu as escadas no meio das pessoas que iam e vinham, ou que estavam paradas em frente às vitrines. Subiu dois lances de escadas rolantes e finalmente se dirigiu a um pequeno espaço aberto, onde algumas pessoas observavam o horizonte, conversando. Casais, grupos de pessoas e a garota. Ela se escorou no parapeito e se pôs então a admirar o negro do mar refletindo o céu da noite, este repleto de pequenas estrelas brancas e algumas nuvens cinzentas. Isso era uma das coisas que a acalmavam e faziam aquele furacão de personalidade respirar tranquilamente e sorrir. Poucos minutos depois, ao olhar pro lado ela viu uma senhora olhando para o chão com preocupação, olhando para todos os lados possíveis.

"A senhora perdeu isso?" A garota havia achado um pequeno papel e algumas notas de dinheiro enrolados dentro, perto dos pés daquela senhora.

"Ah, sim, muito obrigada!" a senhora levantou os olhos em direção ao rosto da menina e sorriu com um sorriso extremamente gentil e acalentador "Você me salvou, sabia?! Nossa, como você é bonita, querida! Você me lembra da minha neta."

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